Fernando José Karl


1. Nome, idade e ocupação:
Fernando José Karl: 48 anos. Escritor.

2. Por que você faz o que faz, qual a satisfação que te dá?
Eu faço o que faço por causa do rhythm-and-blues que vaza de cada vocábulo que pronuncio. A satisfação: a mesma que passar a língua na pele da moça nua ou escutar o abandono do vento que ondula a cortina.

3. Onde você gostaria chegar com sua ocupação? Qual o máximo que gostaria de atingir, ainda que fosse utópico?
Eu gostaria de chegar a nado a nada e atingir a sabedoria do Tao, onde eu a xícara de chá possamos ser um; eu e o ópio sejamos um; eu e o vento dancemos ante o leão.

4. Que outra coisa acha que poderia fazer se não fizesse isso? Acredita na idéia de vocação (“Nasci para isto”)?
Eu gosto muito de grafar linhas na página em branco, ou em palavras mais simples: desenhar. Creio piamente que, da mesma maneira que um golfinho é um golfinho; um pêssego é um pêssego; eu sou um poeta: irmão das coisas fugidias; um poeta que escreve porque as árvores não podem escrever; porque os gatos também não podem; eu não creio na palavra “vocação”, mas aprecio a palavra “chamado”.

5. Que outra coisa você não suportaria fazer?
Eu não suportaria fazer sexo com um ventilador em pleno funcionamento. E, também, não suportaria escutar, minuto a minuto, a voz do Sílvio Santos e a voz do Faustão, porque a voz deles é a própria carniça no sovaco da cárie.

6. Você se preocupa com a transcendência do seu trabalho? Gostaria de alcançar a fama e a glória?
Não tô nem aí para a transcendência do que escrevo. Nem quero fama nem glória. Quero, sim, ir ao fundo do desconhecido para encontrar algo absolutamente novo. Quero que Prosérpina – a visionária no interior de minha memória – nunca me esqueça no quarto escuro com a mamba negra.

7. Você acha que gênios existem? De onde vem sua capacidade especial?
O escritor alemão – Novalis – costumava dizer que isto que chamam de gênio é simplesmente o “gênio” do gênio. Ou o “discernimento vital” do discernimento vital. Sim, acredito no gênio, pois o foram Beethoven, Guimarães Rosa, Picasso. Minha relativa habilidade para escrever, penso, vem de Algo ou do sujeito puro do conhecimento, onde não existe o tempo nem o espaço. E Algo, para mim, é render loas ao Shiva na chuva.

8. O que é a arte para você?
É a matéria mais fina de toda certeza. Para mim arte é o que eu fazia quando menino: escutava o céu em silêncio durante o dia e, à noite, conversava com ele. Arte é o sim primordial, e a arte sopra onde quer.

9. Quem te inspira? Por quê?
Tudo o que coroa o nó de fogo me arrebata.

10. O que você está lendo agora? Qual o livro preferido em sua biblioteca?
Estou lendo “Um homem que dorme”, do Georges Perec. O livro que reverencio em minha pequena biblioteca é “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.

11. Como é seu processo criativo? Quanto tempo passa desenvolvendo uma ideia?
O meu processo criativo só molha a pedra seca quando me sinto um verme num pomar de estrelas. E quando constato que toda escrita é porcaria, que toda palavra é moeda falsa. Vem à tona meu processo criativo quando estou vazio, quando, na máxima tensão, consigo permanecer sem intenção. A intenção de escrever algo sublime é o cadáver que não devemos cultuar. Sou da opinião de que é a idéia que me desenvolve. A idéia no sentido que lhe conferiu Platão: “Uma idéia sempre é, mas nunca vem a ser, nem deixa de ser”.

12. PC, MAC ou lápis e papel? Por quê?
Odeio PC, MAC. Amo lápis e caneta BIC preta. O motivo é singelo: o lápis e a caneta estão mais próximos de minha infância.

13. Blog, Fotolog, Orkut, Facebook ou Twitter? Por quê?
Tudo isto é o mal necessário; porque sim.

14. Existirmos, a que será que se destina?
Para serenarmos onde arde o sono toda a ventura. “O sono é uma rosa”, diziam os persas. Existir para aprender a perder ossos, músculos, nervos; menos a voz e a luz. Eis. Existir para saber que devo despertar, não do sonho, mas do estado de vigília. E saber, igualmente, que a árvore que eu vislumbro fora de mim também está dentro de mim.

15. Lo que piensas y lo que dices, es lo mismo?
Claro que sí; claro que nem água.

16. Qual o melhor momento do dia para trabalhar? Por quê?
De madrugada, sem dúvida, porque daí posso escutar a voz do silêncio com mais acuidade.

17. Qual seu site preferido?
Nenhum.

18. É necessário muito treinamento técnico para exercer sua profissão?
O único treinamento técnico que eu possuo é ter as orelhas sempre verdejantes e os lábios calcinados.

19. Você se incomoda que critiquem seu trabalho?
Nem um pouco.

20. Acredita nisso de “não há nada de novo sob o sol”? Você gosta de experimentar e inovar?
Só não há de novo nesta frase do Eclesiastes. Adoro inovar e experimentar carne do salmão que singra no meio da névoa.

21. Drama ou comédia?
Drama.

22. Houve algum momento que que tenha se dito: “Abandono tudo, não quero mais isso pra mim”?
Nunca.

23. Acredita no conceito de alma, espírito, energia vinculada (ou separada) ao corpo?
Acho completamente furada toda a teoria de alma/espírito/energia. Não creio em nada disto. Agora, aprendi com Espinosa que a alma nem sabe da existência do corpo.

24. Voce já diz “No meu tempo não era assim!” ou “Que maravilha a época em que vivemos!”?
Eu digo: eu quero uma noite, só mais uma noite de amor com a moça nua.

25. Os seus nervos são de aço?
De açucena meus nervos; e duros como o diamante.

A CLÁSSICA: O que você gostaria de ouvir de Deus quando chegasse lá?
Eu e você somos um. Mas eu diria a Deus: tenha um corpo você mesmo uma vez, como eu, e veja o que acontece.

Como é seu local de trabalho?
Meu local de trabalho é o ar que eu respiro.
Obrigada Karl. Claro como água.
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1 comentários:

Eduardo P.L disse...

Não gostei do Karl não visitar nenhum site! Nem o meu nem o da Vanu! Mauuuu!