Sydney Michelette Junior

1. Nome, idade e ocupação:
Sydney Michelette Junior, também Juca, Caju, Xuxu ou Syd, depende de quem chama. 44 anos confessos e também para efeitos civis legais. Antes da barba, que deixei crescer esse ano (2009), achavam que eu tinha uns 33 no máximo, donde concluo que não casar pode ter suas vantagens, já que todos meus amigos casados da mesma idade parecem ser mais velhos, e que a barba me emprestou uma certa dignidade de senhor que aparenta a idade que tem. Tenho me ocupado de muitas coisas: já dei aula de matemática, piano e violão; já fui pianista em restaurante árabe; me formei e trabalhei um pouco com arquitetura; fui fazer Desenho Industrial e Licenciatura em Desenho e, ao mesmo tempo, fui me especializar em Restauro e Conservação de Sítios e Monumentos Históricos; voltei pro desenho industrial, ou seja, hoje me ocupo com design, especialmente livros - edição, capas, ilustrações – e faço eventualmente alguns trabalhos como arquiteto.

2. Por que você faz o que faz, qual a satisfação que te dá?
Sabe aquela velha estória de que se parar de pedalar a bicicleta cai? É por aí, vou pedalando. A satisfação talvez esteja em pedalar/trabalhar sempre, no meu ritmo, ou no ritmo que me permite o caminho/trabalho. Dá pra ficar em forma no que faço, apreciar a paisagem... É um cansaço prazeroso.

3. Onde você gostaria chegar com sua ocupação? Qual o máximo que gostaria de atingir, ainda que fosse utópico?
Acho que na área em que atuo o trabalho em si já é tão utópico! O que quero dizer é que nem sempre o que imagino ou crio é, ou pode, ou será materializado; geralmente as restrições são de ordem financeira, mas isso faz parte. Então fico feliz quando o trabalho realizado/finalizado cumpre o seu objetivo. Chegar ao término do trabalho já é em si, uma tremenda realização. O bom é que “o que poderia ter sido permanece eterna possibilidade” (T.S. Eliot). Além do que, tudo que chega a um limite – ao seu máximo – a tendência é se reverter. A queda é proporcional a altura em que se está. O que se faz depois do máximo? Acredito que a “excelência” do fazer não é um objetivo em si, mas um método que devemos colocar em tudo o que fazemos, na medida em que nos é permitido. Utópico mesmo seria flanar sem culpa alguma, mas acho que chegaria um momento em que isso também seria um tédio.

4. Que outra coisa acha que poderia fazer se não fizesse isso? Acredita na idéia de vocação (“Nasci para isto”)?
Acho que minha vocação é fazer tudo, ou fazer qualquer coisa, desde que seja uma opção minha, não imposta, embora a vida imponha algumas coisas. Sou curioso por natureza, posso ficar angustiado quando não compreendo algo, preciso saber das coisas, ainda que não as utilize na prática. Talvez por isso o desenho industrial seja a profissão onde mais me encontrei: no desenvolvimento de produtos industriais, cada projeto é um novo aprendizado; já desenhei escova de dentes, sapato/cintos e bolsas, frasco de perfume, elevadores, luminárias, móveis, instrumentos cirúrgicos, compressores de ar, acessórios para banheiro, utilitários de cozinha...

5. Que outra coisa você não suportaria fazer?
Vender, qualquer tipo de venda. Seria um péssimo vendedor, no sentido de ter que influenciar pessoas para adquirir alguma coisa. Talvez porque não gosto de me sentir pressionado quando pretendo comprar algo. Sou daqueles que ou namoram tempo antes de comprar ou então o contrário: compro logo a primeira vista se a coisa me agrada.

6. Você se preocupa com a transcendência do seu trabalho? Gostaria de alcançar a fama e a glória?
Acho que no fundo todos guardamos o desejo ou mesmo a necessidade de sermos reconhecidos, bem reconhecidos – é bom ressaltar, por aquilo que fazemos. Mas isso não é uma preocupação, não é um objetivo em si. Se acontecer, melhor, sinal de que o trabalho foi bem realizado e vale ser lembrado, caso contrário, melhor que caiam no esquecimento, ou melhor permaneçam enquanto fazem algum sentido. Quantas famas e glórias não foram ou são construídas com um bom trabalho de marketing em cima de um péssimo trabalho? Dispenso esse tipo de glória ou fama.

7. Você acha que gênios existem? De onde vem sua capacidade especial?
Com certeza existem, e com certeza não sou um deles. Capacidade especial? Não sei se minha capacidade é especial, diria mais que ela é ampla e genérica, o que não significa em absoluto que seja bom em tudo que faça, mas tudo o que faço procuro fazer de forma íntegra. É horrível quando me sinto um charlatão no que estou fazendo.

8. O que é a arte para você?
A melhor definição de arte que já escutei é a do Benedetto Croce (acho que é dele a definição): Arte é tudo aquilo que os homens chamam arte. Gosto de ler sobre, e como diversos artistas definem, arte. O livro Desconstrução do Pai, Reconstrução do Pai, da escultora Louise Bourgeois, aquela das aranhas gigantes, sobre seu processo criativo, é algo incrível de se ler.

9. Quem te inspira? Por quê?
Melhor que quem, talvez seja “o que” me inspira: o mundo, tudo! Ver é tão bom, escutar, cheirar... Já pensou em perder um dos teus sentidos? Estou ficando surdo, de verdade, esse processo começou faz uns 5 anos, hoje tenho 40% da capacidade auditiva. Incrível como esse fato muda a ordem das coisas, a forma como você se relaciona, seja com as pessoas ou com tudo ao seu redor. Tem seus prós e contras, como tudo na vida. Lembra a cena do filme Dançando no Escuro, quando a Bjork faz do barulho do duto de ar a sua companhia, porque não consegue ver?
Então eu digo: a inspiração está em nós e no que nos cerca. Posso admirar e admiro o trabalho e o fazer de outras pessoas, mas não diria que isso seja uma inspiração. Antes agradeço por sentir a coisa feita.
Clarice Lispector tem uma colocação bem interessante sobre algo parecido: numa de suas crônicas do Jornal do Brasil, década de 60/70, ela diz que assistiu a um filme no cinema, que não entendeu nada, mas sentiu tudo. Ela se questiona se seria o caso de assistir novamente ao filme, e conclui que não, porque talvez ela possa entender tudo e não sentir nada.

10. O que você está lendo agora? Qual o livro preferido em sua biblioteca?
Acabei de reler O Evangelho Segundo o Filho, de Norman Mailer e O Paraíso Perdido, de Cees Nooteboom. Acho que o livro que mais reli da minha biblioteca é Peças em Fuga, da Anne Michael, poético demais e um dos meus preferidos com certeza. Tem também O dia do Casamento, do John Berger, que sempre releio.

11. Como é seu processo criativo? Quanto tempo passa desenvolvendo uma ideia?
Diria que é constante, pelo menos mentalmente constante. Posso não estar fazendo na prática, mas o trabalho está lá, pendurado na cachola. Quanto tempo? Pode ser rápido – pequeno milagre que às vezes acontece – mas no geral esticam até minutos antes da forca: tipo fale agora ou cala-se para sempre, sabe como é? Até o momento tenho tido muita sorte e pouco juízo nesse aspecto.

12. PC, MAC ou lápis e papel? Por quê?
O começo é sempre no lápis e papel, quer dizer, vezenquando a criação começa digital, mas ainda sou daqueles amamentados profissionalmente antes de existir o computador. PC, pra finalizar o trabalho, porque fui informatizado por ele; MAC naquela época era algo inacessível. Hoje não uso MAC por comodismo, preguiça ou falta de tempo ou curiosidade para migrar para outra plataforma de trabalho.

13. Blog, Fotolog, Orkut, Facebook ou Twitter? Por quê?
Blog já fiz várias tentativas, não sou metódico, desisti. Orkut foi o primeiro, então mantenho, desleixado diga-se. Facebook comecei “obrigado” por um amigo com quem falo virtualmente há 5 anos, apesar de morarmos na mesma cidade e nos conhecermos pessoalmente. Vício de profissão, já que tudo começou nas longas madrugadas que cada um varava fazendo seus próprios trabalhos, pedindo opinião alheia, já que às 5 da manhã teu senso crítico está zerado. Twitter? Só ouvi falar e vi de passagem, aquele passarinho é bem maneiro. Por que o quê mesmo?

14. Existirmos, a que será que se destina?
Pergunta pra minha mãe, que foi onde tudo começou. Ah Vanu, isso tem cara daquela velha pergunta da CL: Ser feliz é pra conseguir o quê? O quê que se consegue quando se fica feliz. Existimos pra sermos felizes, o que em si já é um fato consumado: Existo, logo sou feliz. Nossa, estou parecendo um compêndio de auto-ajuda! Mas é por aí. Para saber mais sobre isso ou essa teoria ou postura de vida, recomendo que leia André Comte Sponville, em especial os artigos do livro “Bom dia, angústia”. Bom demais!

15. Lo que piensas y lo que dices, es lo mismo?
Não mesmo! Penso muito, falo pouco, e quase sempre o que falo não quer dizer o que penso, ou pelo menos o que sinto, a não ser quando falo palavrão, o que é raro, mas quando sai é sincero, entoces...

16. Qual o melhor momento do dia para trabalhar? Por quê?
No momento escolhi que é à tarde, depois do almoço.
Acordo às 7 amanhã, tomo café, brinco com a gata – bicho mesmo -, vou malhar, depois correr na praia, mergulho no arpoador, banho, escovar a gata, almoçar, trabalhar. Não levo trabalho pra casa.

17. Qual seu site preferido?
itau.com.br, com ele nunca mais fui ao banco, tanto que depois de 10 anos morando no Rio, minha conta ainda é numa agência de Curitiba.
Não sou apegado a nenhum site; abro diariamente o UOL pra ler notícias, Orkut pra falar/responde a algum amigo. Já fui viciado no site de postar fotografias Tabblo.com, e recomendo para quem gosta de fotografar ou fotografia; acompanho vezenquando os sites sobre design Usabilidoido.com.br e Bemlegaus.com pela profissão, e estou sempre fuçando coisas na net.
Se for pra recomendar: http://bibliodyssey.blogspot.com/ um site com coisas pra lá de bacanas

18. É necessário muito treinamento técnico para exercer sua profissão?
A parte técnica fica a cargo de aprender informática, já que é praticamente impossível exercer a profissão de designer sem usar o computador. Se não for você pessoalmente usando, com certeza vai ter alguém fazendo por você. E desenhar, a prática do desenho a mão livre não deixa de ser um treinamento técnico também.

19. Você se incomoda que critiquem seu trabalho?
Nem! Mesmo porque não tenho pudores em fazer o mesmo com o trabalho dos outros. Prefiro a palavra analisar, ou invés de criticar, sem nenhum eufemismo aqui, ok?!
Isso é particularmente exercido na profissão e no dia-a-dia do designer. Faz parte do métier, você está sempre analisando as coisas, o uso, a apropriação do produto, a proposta. Isso vai de encontro a questão que coloquei na pergunta da realização profissional: você faz o que pode ou dá, nem sempre o que quer.

20. Acredita nisso de “não há nada de novo sob o sol”? Você gosta de experimentar e inovar?
Nada se cria, tudo se copia? Ou melhor seria, nada se cria, tudo se descobre.
Isso lembra Caetano:
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos, não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio


Quantas vezes não nos perguntamos: como é que não pensei nisso antes? quando vemos algo novo?

21. Drama ou comédia?
Melodrama sempre! Bem grande! Tipo enfiar o pé na jaca mesmo, que de tão dramático chega a ser cômico: quer coisa melhor do que isso? A catarse no final é algo que não tem preço, cura qualquer resquício de mesquinhez ou amargura e te traz de volta ao tamanho real e beleza das coisas.

22. Houve algum momento em que tenha se dito: “Abandono tudo, não quero mais isso pra mim”?
Vários momentos, não só dito como feito. Penso muito e falo pouco, mas quando falo, boto em prática.

23. Acredita no conceito de alma, espírito, energia vinculada (ou separada) ao corpo?
Como não? Acho que foi o Mário Quintana quem disse ou escreveu que “alma é essa coisa que nos faz questionar se ela existe...”
Já fiz terapia de regressão, projeção de corpo mental, sinto quando tem encosto no meu cangote. Acredito que existem bandas de energia, boas e ruins, depende de onde você sintoniza ou se deixa sintonizar ou captar.
É algo que, independente de crer, tem que vivenciar para realmente passar a acreditar. Repare que crer é diferente de acreditar, dar o crédito. Só posso dizer que minha experiência com a regressão e projeção foi física o suficiente para me fazer acreditar na materialização da energia.
Essa questão me parece bem colocada (os grifos são meus) quando o filósofo Ficino discorre sobre a alma:
(...) acima daquilo que flui limitado pelo tempo (o corpo) está aquilo que subsiste por todo o tempo (a energia que mantém o corpo íntegro), e que ainda acima disto está aquilo que subsiste pela eternidade (nada se perde, tudo se transforma), ou seja, acima do tempo está o eterno. Mas, entre as coisas que são apenas eternas (energia) e as outras que fluem apenas no tempo (o corpo), temos a alma, que é uma espécie de ligação entre as duas esferas. (...) A alma, com efeito, é imóvel e móvel. Por certo instinto natural, ascende para coisas superiores e desce para as inferiores. E, enquanto ascende, não abandona as coisas mais baixas, e, enquanto desce, jamais deixa o divino.

24. Voce já diz “No meu tempo não era assim!” ou “Que maravilha a época em que vivemos!”?
Vivo dizendo os dois, com uma certa tendência a nostalgia mesmo. Acho que nasci na época errada, melhor dizendo, acho que me daria bem se vivesse na época dos homens das cavernas: sou totalmente bicho carpinteiro, gosto de fazer e consertar tudo e há quase dois anos não ligo televisão em casa.

25. Os seus nervos são de aço?
Ah, devem ser de elásticos, são flexíveis, extensíveis, às vezes arrebentam, mas tem alta capacidade de regeneração.

A CLÁSSICA: O que você gostaria de ouvir de Deus quando chegasse lá?
Acho que antes dele dizer qualquer coisa eu é que diria:
Nossa! Finalmente nos conhecemos pessoalmente!

Como é seu local de trabalho?

Obrigada Juca. Gosto muito da resposta 14 e 17.

Conheçam mais sobre este Senhor aqui.

E aqui, aqui, aqui, aqui E aqui.

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