Leo Lama


1. Nome, idade e ocupação:
Meu nome é Leonardo Martins de Barros, mas inventei um Leo Lama, junto com meu pai, para ser artista com nome artístico. Leonardo vem de Lionheart (coração de leão). Portanto, Leo é leão e Lama é esse pó da terra, sou um leão de argila e também um monge do Tibet. “Leolam”, sem o “a” quer dizer “mundo” em hebraico, ou seja, tenho uma coisa que me joga às esferas. Tenho 45 anos, às vezes sou maduro, às vezes sou velho, mas quase sempre sou adolescente em termos de curiosidade. Sou escritor, mas minha vocação é organizar pensamentos e procurar a comunicação perfeita. Gosto de esclarecer conceitos mal formulados.
2. Por que você faz o que faz, qual a satisfação que te dá?
Eu faço o que eu faço porque o que faço foi me fazendo sem que eu percebesse o que fazia. A satisfação é uma busca de consenso e de Si mesmo. Acredito no princípio do prazer, mas, nem sempre este coincide com a Ética. Ao cavaleiro cabe a postura de quem serve a algo maior. Superior a ele. Quero ser um cavaleiro quando eu crescer.

3. Onde você gostaria chegar com sua ocupação? Qual o máximo que gostaria de atingir, ainda que fosse utópico?
Eu gostaria de chegar aos oceanos sem margens. Eu gostaria de atingir a forma perfeita em minha arte, aquela com estrutura capaz de se preservar de modismos e mentes estreitas. Gostaria de conseguir imitar a estrutura da flor.

4. Que outra coisa acha que poderia fazer se não fizesse isso? Acredita na idéia de vocação (“Nasci para isto”)?
Em termos de profissão faria qualquer coisa que não ferisse a Ética e a Espiritualidade, não acho que ser “profissional” é algo importante. Não vejo a vocação como uma idéia, mas como um chamado. A palavra é religiosa, vem do latim e se refere ao chamado para se tronar um religioso. Um padre, por exemplo. Encontrar esse chamado é uma busca espiritual, pois se refere à estrutura do ser de cada um e não à ocupação na sociedade. Mas, como a maioria dos conceitos nos tempos modernos, o conceito de vocação se apequenou, se vulgarizou e se encontra em processo de definitiva banalização nos testes vocacionais. Portanto, como todo ser humano, eu nasci para ser um vocacionado.

5. Que outra coisa você não suportaria fazer?
Na verdade eu não gosto de fazer. Não sou gente que faz. Não tenho saco para fazer coisas. Não suporto ter uma ocupação, qualquer que seja. Acho tudo bestializante quando fazer é mais importante do que realizar. Gosto de não fazer nada, mas principalmente quando este nada é propiciador de acontecimentos em meu interior. Eu gostava de ir ao cinema, mas ultimamente, não consigo assistir um filme até o fim. Sinto falta de obras-primas.

6. Você se preocupa com a transcendência do seu trabalho? Gostaria de alcançar a fama e a glória?
Preocupo-me com o conceito de transcendência em um trabalho. O que seria isso? O que se transcende? O trabalho faz mal. O trabalho corrói o caráter. A obra é transcendente e imanente. Ou seja, deve ser direcionada ao metafísico e a partir do metafísico. O que é o metafísico? Viu? Todos os conceitos precisam ser esclarecidos para que possa haver diálogo. Quando estou pensando em fama, sinto que este pensamento não me pertence, sinto que é um pensamento criado a partir da própria sociedade que foi sendo criada ao longo dos séculos, sociedade decadente, diga-se. O desejo de fama é mimético, jamais será genuíno. É uma distorção do ego. Glória seria outra coisa. O conceito original também é religioso, vem da glorificação a Deus. Portanto, o homem que pensa na própria glória estaria se colocando em um lugar que não é seu. Assim sendo, querer alcançar fama e glória é uma distorção mental, mas estar em uma posição em que a fama o acomete, não deixa de ser uma provação.

7. Você acha que gênios existem? De onde vem sua capacidade especial?
Nenhum homem tem uma capacidade criadora à cima do que foi e é criado pelo Criador. Ter um talento artístico exacerbado não confere a ninguém uma superioridade, qualquer que seja. Isto significa apenas fazer aquilo a que se propôs com o maior esmero possível. Shakespeare era um gênio? Não. Pois suas obras de maior alcance são baseadas nas estruturas simbólicas da bíblia. O que se pode dizer é que as obras de Shakespeare são geniais. As grandes obras são analogias da criação e as de maior alcance são as que menos mostram a assinatura, o estilo do artista e mais a forma estrutural de uma geometria sagrada. Perdemos a noção simbólica do sagrado. A arte sacara, ou seja, a arte com temática religiosa, não é a arte sagrada. A arte moderna é baseada na identificação psicológica. Costumamos endeusar o que achamos que tem a ver conosco (ou seja, com o nosso ego) e o que os outros dizem que é bom. Atualmente, pouco se sabe sobre o que é Ser Humano. Quem sou eu para dizer tal coisa? Alguém que não tem nenhuma capacidade especial.

8. O que é a arte para você?
A Arte é filha - histórica e logicamente - do Rito, este, dado a nós por Graça, não apenas para impedir que a Verdade destrua a criação - porque o Todo não cabe na parte - mas para prismá-la em feixes de todas as cores a fim de que a Luz, vestida de forma, penetre, fecunde e inspire a existência. O Rito é a língua que fala a Revelação ao coração dos homens, e a Arte, a verdadeira, é a sua singela resposta.

9. Quem te inspira? Por quê?
Inspiram-me os homens que atuam com disciplina em um caminho espiritual. Porque é um homem assim que quero ser. Inspiram-me também aqueles que se isolam profundamente na natureza. Ser solitário é um dom para poucos e os grandes espaços naturais conservam símbolos que a modernidade ainda não destruiu. Inspiram-me os Caipiras Mortos. O que é um caminho espiritual? É uma pergunta a ser respondida.

10. O que você está lendo agora? Qual o livro preferido em sua biblioteca?
Estou sempre lendo Ibn Arabi, um místico sufi do século XIII. E agora leio a obra do Eric Voegelin que está sendo traduzida e editada com muito esmero pela editora “É-realizações”, fato raro no Brasil. Estou lendo também livros sobre a medicina chinesa.

11. Como é seu processo criativo? Quanto tempo passa desenvolvendo uma idéia? Passo meses com a idéia se desenvolvendo em mim e poucos dias escrevendo. Escrever é dentro.

12. PC, MAC ou lápis e papel? Por quê?
Pc e lápis e papel. Porque sim.

13. Blog, Fotolog, Orkut, Facebook ou Twitter? Por quê?
Blog, porque é uma ginástica para a escrita.

14. Existirmos, a que será que se destina?
Ser Humano é conhecer.

15. Lo que piensas y lo que dices, es lo mismo?
Nem sempre, mas acho mais importante fazer o que se diz. Cumprir a palavra. Vivo tentando transformar meu discurso em verdade prática. Somos 70% teóricos e 30% práticos. Em poucos momentos estamos no presente. O animal racional quase sempre está com o corpo em um lugar e a mente em outro. Muitas vezes isto causa desarmonia.

16. Qual o melhor momento do dia para trabalhar? Por quê?
Trabalho de madrugada, por que as fadas são mais generosas quando a atmosfera é mais onírica.

17. Qual seu site preferido?
Entro pouco em sites.

18. É necessário muito treinamento técnico para exercer sua profissão?
É.

19. Você se incomoda que critiquem seu trabalho?
Não. Me incomodo que faltem críticos capacitados. Os critérios andam confusos.

20. Acredita nisso de “não há nada de novo sob o sol”? Você gosta de experimentar e inovar?
O novo é apenas o que está esquecido. Acredito que o antigo é o novíssimo e a novidade é sempre velha.

21. Drama ou comédia?
Tragi-comédia.

22. Houve algum momento que que tenha se dito: “Abandono tudo, não quero mais isso pra mim”?
Estou sempre abandonando tudo. Sempre.

23. Acredita no conceito de alma, espírito, energia vinculada (ou separada) ao corpo?
Acredito que entre o mundo e A Providência, está o simbólico. Entre o corpo e o espírito está a alma. Entre a imaginação e a intuição está a razão. Entre o ego e o sujeito, está a linguagem. Simbólico, alma, razão e linguagem, são a mesma coisa em planos diferentes. Mundo, corpo, imaginação e ego também, assim como A Providência, o espírito, a intuição e o sujeito. O injusto se cria quando simbólico, alma, razão e linguagem querem se bastar a si mesmos, quando não exercem a função que deveriam, que é a de ser ponte e não fim. Quando o homem quer ser por si mesmo, eis o injusto, quando quer se conhecer, aí está A Providência.

24. Voce já diz “No meu tempo não era assim!” ou “Que maravilha a época em que vivemos!”?
Eu digo: sinto saudade de um presente mais atualizado com o espírito.

25. Os seus nervos são de aço?
Os meus nervos são de açúcar.

A CLÁSSICA: O que você gostaria de ouvir de Deus quando chegasse lá?
Gostaria de ser aniquilado por Sua presença.


Como é seu local de trabalho?

Não trabalho sempre no mesmo lugar. Meu lugar de trabalho é dentro.

Sou nômade, inclusive dentro.


Obrigadíssima Leo. Me identifico com a resposta 20.


Conheçam mais sobre este Caval(h)eiro aqui. E vejam o trailer de O Nome do Cuidado (documentário) aqui.

2 comentários:

kimberlly disse...

Ola Me chamo Kimberlly Rocha...

Revirei a internet a procura do texto na integra Dores de Amores.


Quero muito esse texto, Poder fazer um trabalho... Como esse..
Faço teatro há 4 anos e meio... E sei quem é quem foii seu pai (Que Deus o Tenha)... Sei que ele é um escritor otimo... Otimo sim... Pois ja tive o orgulho de trabalhar no curta santos com os textos deles. Organizado por Toninhos Dantas (Que Deus o Tenha)... Eu ja revirei tudo e não encontrei, só o que encontrei foi o livro... Por favor... Pode me ajudar com isso?
Quero poder realizar esse trabalho ainda em setembro...
Se possivel..

Kimberllyrocha@hotmail.com

Sole disse...

Boas as colocações, me identifiquei com muita coisa, principalmente com 'meus nervos são de açúcar', pra mim foi a melhor definição pro meus nervos!

abraços

Solange Mazzeto